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terça-feira, 23 de junho de 2015

Conversas com o espelho

Conversas com o espelho
(Bruna de Paula)
Tenho a estranha mania de pensar o mundo a partir do meu espelho, meu reflexo já foi uma soma do que disseram que eu era, do que queriam que eu fosse. Foi um processo dolorido encontrar o rosto atrás das máscaras que me eram colocadas. Mulheres da minha cor, mulheres negras desde meninas estão acostumadas a ter pessoas dizendo qual é o seu lugar. Ora falavam que meu pé tava na cozinha, ora que meu lugar era a frente de uma escola de samba, também escolhiam meu marido, diziam que deveria ser um gringo, um homem loiro, olhos claros, rico e que através disso eu iria mudar minha vida. Minha mãe sempre me incentivou a olhar além, disse que eu deveria estudar, trabalhar e batalhar pra ter minhas próprias coisas.
Cresci num mundo onde eu não era vista, um mundo onde dizia que todo mundo era igual, mas eu não era tratada como igual.
Na última semana, estive conversando com o espelho, onde hoje me vejo sem as máscaras, meu semblante insatisfeito tinha motivo. Miguel Fallabella, homem branco, quer levar ao ar a série “Sexo e as nega”, olhando o título, novamente senti como se quisessem colocar em mim as tais máscaras que me anulavam no passado. 4 amigas, moradoras de um bairro pobre, em subempregos e loucas por sexo. E muitos se perguntam, onde está o problema?
Para que melhor fique ilustrado, eu sempre retorno a minha infância, onde as mulheres da minha cor nunca estavam representadas nos cargos das empresas das novelas, nunca era a esposa do dono dos impérios retratados, nunca eram as donas dos impérios. Mulheres negras não estavam nos concursos de belezas, só nos que eram pra representar uma beleza carnavalesca. E nas aulas de história, eu só conseguia dar graças a Deus por não ter nascido uns 200 anos mais cedo. Quando comecei a viver minha vida amorosa/sexual os rapazes não flertavam comigo falando sobre minha beleza, o flerte era sempre sobre como mulheres negras eram quentes e fogosas.
Miguel Fallabella, dar protagonismo não é fazer isso que você está fazendo, reforçando estereótipos. Sim, gostamos de sexo, não há problema nenhum nisso, mas quando nossa imagem é somente remetida a mulheres de sexo fácil, quando nos objetificam e você contribui pra dar visibilidade a essa imagem, você não está nos tornando protagonistas. Quando você não ouve nossas vozes e nos chama de capitães do mato por estarmos reivindicando nossos direitos, você não nos dá o protagonismo. Sim, nós somos domésticas, mas também somos advogadas, professoras, pedagogas, psicólogas, nutricionistas, veterinárias, esteticistas, figurinistas... 


Quando acontece um caso de racismo que chega ao conhecimento de todos, como tem acontecido com o racismo no futebol, os artistas se mobilizam, fazem campanhas publicitárias contra o racismo, comem bananas. Mas no dia a dia, é na nossa cara que a banana é jogada, são os nossos corpos que são arrastados e jogados nos becos. A mídia que faz a campanha é a mesma que nos invisibiliza e silencia, não nos dá destaque e quando dá, temos que ficar satisfeitos com qualquer coisa “qual foi pretinha, to aqui pagando de princesa Isabel, te ajudando e você ainda quer reclamar?”, foi exatamente o que eu interpretei do pronunciamento do Miguel Fallabella.
A grande mídia contribui para que não sejamos reconhecidos como seres humanos em sua plenitude e aguarda a bomba estourar para dizer que está do nosso lado fazendo campanhas pouco eficientes, já que diariamente torturam e desgraçam a nossa imagem.
Meu espelho reflete a luta das minhas ancestrais, refletem o sorriso das minhas irmãs, suas histórias de vitória ou dor. Meu espelho não reflete nenhuma história que um branco equivocado resolva contar sobre mim.
E não precisa me dizer que a série ainda nem começou pra eu estar aqui falando, eu vivencio os julgamentos há 23 anos, já sei quando vão honrar ou não minha história só lendo a capa do livro. Quem quer reafirmar nossas lutas, ouve nossas demandas em vez de dar o que supõe que a gente precisa.
E se tem uma coisa que a gente não precisa, é mais gente divulgando a nossa imagem como a carne mais barata do mercado.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Preta

Preta, eu sei
Eu sei que você não gostava muito de se olhar no espelho
Sei que seu cabelo era um problema
Preta, eu sei
Eu sei que a professora não tocava sua cabeça como a das outras meninas
Eu sei que você não tocava nos seus fios
Eu sei da dor que era desembaraçar
Eu sei também que vieram os apelidos
Eu sei que seu desejo era acabar com aquilo
Eu sei que nenhuma boneca sua se parecia com você
Ou nenhuma estrela de tv
Eu sei que você se achava menos bonita
Eu sei o que você fez pra escapar disso tudo
Você relaxou, não foi? Você alisou...
Você puxou, você esticou
Eu tava lá, preta... eu vi
Você se desenhou branca? Você sonhou com você tendo outro cabelo e outra pele?
Tava imposto, não tinha jeito
Você fingia ser outra pra alcançar respeito
Eu sei preta, que você se viu na outra preta que passou
Com seu cabelo solto, cheio de crespura e amor
Eu sei que você se viu




Eu sei, preta... você tem medo, né?
Você acha que seu cabelo não é digno de respeito
Você tem medo dos olhares e das reações
Mas preta, deixa eu te contar
Beleza maior em você, irá encontrar
Você nunca se sentiu completa com aquelas máscaras, não é verdade?
Você vai viver a beleza de ser você
Vai ver, vai gostar
Vai voltar pra me contar
Vem preta, solta esse cabelo
Olhe suas irmãs e veja quanto espelho
Descobriu seu poder?
Ninguém nunca mais vai te dizer
Quem você tem que ser.
Bruna de Paula.

domingo, 11 de maio de 2014

Sobre Lupita, mulher negra e representatividade

Eu sou mulher
Eu sou negra
Negra nos traços, no cabelo

E não quero que branco nenhum fale da minha condição
Eu não quero que branco nenhum fale por mim
Não fala das minhas irmãs
Não me diga que o racismo é culpa minha por que eu falo dele
Você não tem o direito
Desconstrua seu racismo
Falar sobre ele, deixa com a gente
Para com esse papo de igualdade
Você não tem que me respeitar porque me acha igual
Eu sou diferente
Aceita
Respeita
Eu tô cansada de vocês querendo me silenciar
Só que vocês se fodem porque eu descobri que tenho voz
Se fodem porque eu reconheço opressão disfarçada de apoio
Seu lugar na minha luta é aprendendo comigo
Não sobe meu palanque, desce daí




Bruna de Paula Pereira

domingo, 6 de abril de 2014

Eu escolhi encrespar

Os ferros não aprisionaram meu corpo
Mas foram utilizados para alisar minhas raízes
Raízes desconhecidas, desconsideradas
Isso afetou minha auto estima durante anos
Eu não alcançava nunca a imagem desejada
A imagem da mulher que eu via no outdoor
Seus cabelos eram lisos, compridos e esvoaçantes
Quando eu dormia durante a noite, conseguia me ver em meus sonhos
Era eu, mas minha cor era clara, meus cabelos eram compridos, eu trabalhava em empresas como as moças nas novelas.
Não tinha negra na empresa da empresa, não senhor
A negra estava servindo uísque pro doutor
Nas rodinhas na escola, todo mundo escolhia a princesa que se identificava, minhas coleguinhas diziam que não tinha princesa da minha cor, que eu parecia mais com a bruxa da Pequena sereia
O tempo passou, e eu alisando...anos... alisaaando...
Ficava feliz em véspera de festa, eu iria ao salão, a escova ficava muito mais bonita lá
Triste era ter que lavar o cabelo
E assim fui seguindo, não entendia por que não me sentia parte de mim, nem de ninguém
Meu cabelo nunca seria comprido, de 6 em 6 meses eu tinha cortes químicos, ele nunca seria liso
Minhas tias falavam "coloca implante, é muito mais prático"
Mas eu imaginava: e no dia que faltar dinheiro pra manutenção? Não vou querer sair na rua...
Eu não estaria sendo eu, eu não seria ninguém
Um dia a raiz fofa e alta foi o prenuncio de um novo tempo
No corte da tesoura, senti uma força tomar conta de mim
Eu era Sansão ao contrário

Meu pescoço se ergueu, minha vida se encheu de cor
Passei a enxergar minha cor
No encontro com minhas iguais, me vi cercada de espelhos
Encontrei gente que estava na mesma estrada que a minha e eu não as tinha reconhecido
A nossa história foi marcada por silêncio e invisibilidade
Mas nós estamos aqui, pra contar a história para quem quiser ouvir
Em cada contorno, em cada fio, uma palavra, uma página
Meu corpo carrega um conto que ninguém contou
Tá escrito aqui a trajetória de sucesso em busca da identidade
Me amo em cada traço
Faço da minha vida resistência e poesia
Me percebo em mim, me percebo nas minhas irmãs e estamos aqui pela força da coletividade
Eu escolhi encrespar
Por: Bruna de Paula Pereira

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Fábulas da realidade



Existiu aqui uma menina magrela cheia de medos
Existiu uma menina que nem sabia que existia
Que não se entendia 
Sabia que preta era sua cor
Mas não sabia que fazia parte de um processo embranquecedor 
Que lhe fez durante 20 anos achar comum querer ter um cabelo que não o seu
O que mais esse processo poderia lhe sugerir? Afinar o nariz com plástica? Passar cremes clareadores de pele e bloqueadores de melanina?
Não me lembro muito bem quando foi, mas um dia a menina resolveu dizer não
E foi incomodando o mundo mostrando uma imagem que não era agradável, tinham raízes de história sobressaindo a retidão processada a base de hidróxido de sódio...
Ela resistiu.
Um belo dia resolveu aniquilar aquela extensão que não representava o que estava vindo de dentro
O grito de suas raízes, de sua história
Naquele dia se iniciou um novo ciclo em sua vida
Um ciclo de segurança, de questionamento e de expressão de opinião
Ninguém mais via a menina apenas como uma magrela com medo de tudo
Ela tinha algo a mais, as pessoas paravam pra ouvir...
A menina tinha medos, mas agora falava deles abertamente, tinha resgatado tudo de si que estava escondido dentro dela própria. Tinha adquirido força e beleza, se sentia uma mulher.
Hoje a menina vive seus dias a desfrutar dos prazeres que é ser ela mesma em tempo integral.

Não se trata apenas de cabelo. Quando há reflexão, tudo em você muda. O mundo a sua volta muda. Experimente!


@bruna_depaulla